Dose e titulação

Posologia do canabidiol: titulação, teto de dose e a armadilha das gotas

Como titular canabidiol na prática: por que a curva é bifásica, qual teto a literatura sustenta, e por que prescrever em gotas pode dobrar ou reduzir pela metade a dose entregue.

Posologia do canabidiol: titulação, teto de dose e a armadilha das gotas

Comece por um número que provavelmente está errado na sua cabeça, e não por sua culpa.

Se você prescreve canabidiol em gotas usando a conversão de 20 gotas por mililitro, está usando um fator que não corresponde a nenhum produto brasileiro de canabidiol. Os folhetos declaram de 25 a 50 gotas por mililitro. A depender da marca, a dose que chega ao paciente pode ser metade ou o dobro da que você calculou.

E o número de 20 não vem da Farmacopeia Brasileira. Ele deriva do capítulo geral 1101, Medicine Dropper, da USP, que especifica um conta-gotas cujas gotas de água pesam de 45 a 55 mg, o que dá cerca de 20 gotas por mL de água. O próprio texto da USP adverte que a maioria dos líquidos medicinais não tem a mesma tensão superficial nem a mesma viscosidade da água, e que por isso o tamanho da gota varia de uma preparação para outra.

A Farmacopeia Brasileira não fixa número nenhum. O capítulo 5.1.8, Teste de gotejamento, exige que o fabricante declare quantas gotas há em 1 mL e depois apenas verifica se a declaração se cumpre, aceitando variação de 85 a 115 por cento por unidade[fonte]. Quando o fabricante não declara nada, a norma manda usar 20 gotas como quantidade de ensaio, e é daí que o folclore se alimenta. Não é fator de conversão clínica.

Óleo não é água: tem outra tensão superficial, forma gota menor, e por isso cabem mais gotas no mesmo mililitro. O fenômeno não é exclusivo da cannabis. Em colírios de glaucoma, um levantamento com 192 frascos de 32 desenhos diferentes mediu de 20,9 a 40,8 gotas por mL, variando com o fabricante e até com a inclinação do frasco[fonte].

Conferi os dez artigos que disputam essa busca no Google brasileiro. Três deles ensinam a conversão. Dois usam 20 gotas por mL. Nenhum explica por que o número não se aplica.

Este texto trata da posologia do canabidiol na perspectiva de quem assina a receita: por que a titulação é obrigatória, com que mecânica ela se faz, até onde a literatura sustenta subir, e como prescrever sem depender de contar gota.

Por que titular, e não simplesmente dosar

A resposta mais curta é que a curva dose-resposta do canabidiol não é linear.

Em ansiedade isso está demonstrado. Zuardi e colaboradores testaram canabidiol em 100 mg, 300 mg e 900 mg num teste de falar em público em situação real, com placebo e clonazepam como comparadores. Só a dose de 300 mg reduziu a ansiedade de forma significativa. Nem 100 mg, nem 900 mg[fonte].

É a curva em U invertido: a resposta melhora até certo ponto e depois piora. Existe, portanto, uma janela terapêutica, e ela é individual.

Isso inverte um reflexo clínico que serve bem na maior parte da farmacologia. Diante de resposta insuficiente, o movimento automático é subir a dose. No canabidiol, subir pode afastar o paciente da janela em vez de aproximá-lo.

Dos dez concorrentes analisados, nenhum nomeia o efeito bifásico. Um deles chega a descrever o fenômeno, dizendo que doses muito altas podem diminuir a eficácia, sem dar nome a ele. Nomear importa, porque é o que transforma uma curiosidade em critério de conduta.

A segunda razão para titular é farmacocinética, e aqui vale precisão, porque circula muito número solto.

A biodisponibilidade oral do canabidiol é baixa, por conta do metabolismo de primeira passagem. Devinsky e colaboradores estimam algo em torno de 6 por cento[fonte]. Estudos pré-clínicos trabalham a faixa de 13 a 19 por cento. E a revisão sistemática de Millar e colaboradores registra um dado que é o mais importante dos três: nenhum estudo mediu a biodisponibilidade oral absoluta do canabidiol em humanos[fonte].

Ou seja: não existe fator de correção confiável porque não existe o número. O que existe é titulação.

A mecânica do escalonamento

Aqui está a lacuna mais reveladora do levantamento. A palavra titulação aparece em 4 dos 10 concorrentes. A palavra escalonamento aparece em 2. Dose de resgate aparece em nenhum. Ou seja: metade da SERP cita o conceito e quase ninguém descreve a mecânica.

A mecânica é o que segue.

Titulação de canabidiol, passo a passo

  1. Estabelecer a dose inicialInício

    Começar pela menor dose que faça sentido para o alvo clínico. Em adulto, doses iniciais baixas divididas em duas tomadas são a prática mais comum, e a bula brasileira parte de 2,5 mg/kg/dia com aumento gradual.

  2. Manter o intervalo antes de subirIntervalo

    Subir só depois que o efeito da dose atual pôde se manifestar. Escalonar todo dia impede saber o que produziu o quê, e transforma efeito adverso transitório em motivo de abandono.

  3. Subir em incremento pequeno e previsívelIncremento

    Aumentos pequenos permitem identificar a janela. Aumentos grandes atravessam a janela sem que ninguém perceba que ela existia.

  4. Parar no primeiro dos dois critériosParada

    Para de subir quando o alvo clínico foi atingido OU quando surge efeito adverso limitante. O que vier primeiro define o teto daquele paciente.

  5. Reavaliar em consulta marcada, não sob demandaRevisão

    A reavaliação entra na agenda desde a primeira consulta. Aparece em apenas 1 dos 10 concorrentes, e é o que separa acompanhamento de entrega de receita.

Doses e intervalos concretos dependem do alvo clínico, do produto e do paciente. A sequência é o método; os números são decisão do prescritor.

Dois conceitos que a SERP não menciona e que fazem diferença no acompanhamento:

Dose de resgate. Em quadros com componente irruptivo, faz sentido separar a dose de base da dose de resgate, e escolher vias diferentes para cada uma, porque a via define o tempo até o início do efeito. Nenhum dos dez concorrentes fala nisso.

Desmame. Descontinuação também é conduta, e também é gradual. Nenhum dos dez trata do assunto.

Dose máxima de canabidiol: de onde vem cada número

Pesquise “dose máxima de canabidiol” hoje e você encontra 25 mg/kg/dia atribuído ao CFM em quase toda a primeira página do Google, inclusive em página de hospital universitário. Vale abrir esse número, porque a procedência dele é mais frágil do que parece.

O número existe mesmo. Está no Anexo IV da Resolução CFM 2.113/2014, o Protocolo de utilização do canabidiol, que diz: a dose pode ser aumentada em 5mg/kg/dia a cada sete dias, até a dose máxima de 25mg/kg/dia[fonte]. É essa página do portal do CFM que aparece em primeiro lugar na busca, e ela não traz data nem aviso nenhum.

O que ela não conta é a sequência que veio depois. O Art. 5º da Resolução CFM 2.324/2022 determina, literalmente: Revoga-se a Resolução CFM nº 2113/2014. O PDF oficial da 2.113 no próprio servidor do CFM traz o carimbo REVOGADA[fonte][fonte]. E onze dias depois, a Resolução CFM 2.326/2022 sustou temporariamente os efeitos da 2.324, para abrir nova consulta pública[fonte].

A 2.324 não fixa dose nenhuma: ela trata de indicação. A RDC 1.015/2026 da Anvisa também não: procurando por posologia, dose e mg/kg no texto integral, não há[fonte].

Não me cabe resolver o que sobra juridicamente dessa sequência, e não vou tentar. Diante da dúvida, o caminho é o seu CRM. O que cabe registrar é o fato verificável: o número mais citado do Brasil como teto de canabidiol vem de anexo de uma resolução carimbada como revogada no servidor do próprio conselho. Se você for usar 25 mg/kg/dia, use sabendo de onde ele veio.

Cada número de dose máxima que circula, e de onde ele sai

NúmeroOrigemO que ele é
25 mg/kg/diaAnexo IV, CFM 2.113/2014Resolução revogada
20 mg/kg/diaDevinsky 2017 e Thiele 2018Dose testada em fase 3
25 e 50 mg/kg/diaThiele 2021, esclerose tuberosa25 teve melhor segurança
20 mg/kg/diaBula do EpidiolexMáximo aprovado em bula
2,5 a 25 mg/kg/diaBula brasileiraFaixa descritiva, não teto
200 a 300 mg/diaInforme do Sírio-LibanêsFaixa usual em adulto

Nenhum desses números é dose máxima fixada por norma em vigor no Brasil. O de 2014 vem de resolução revogada; os de ensaio são doses testadas em epilepsia refratária, e não tetos gerais; o da bula brasileira é linguagem descritiva.

Três leituras que a tabela obriga.

A dose de ensaio é dose daquele alvo clínico. Os 20 mg/kg/dia vêm dos ensaios de fase 3 em síndrome de Dravet[fonte] e em Lennox-Gastaut[fonte]. Transportar esse número para ansiedade ou dor é erro de leitura de literatura.

Dose maior nem sempre é dose melhor, e existe ensaio que mediu isso. No estudo de esclerose tuberosa, 25 e 50 mg/kg/dia foram comparados, e os autores concluem que a dose de 25 mg/kg/dia teve melhor perfil de segurança que a de 50. Quase um em cada cinco pacientes em canabidiol teve elevação de transaminases[fonte].

A bula brasileira não fixa teto. Ela diz, literalmente, que a literatura cita a administração de canabidiol em doses entre 2,5 e 25 mg/kg/dia[fonte]. Isso não é teto regulatório, não é dose máxima aprovada e não é esquema de titulação: é linguagem descritiva, porque o produto é autorizado como Produto de Cannabis e não registrado como medicamento com posologia aprovada. O contraste com o Epidiolex ajuda: lá a posologia é formal, com início de 2,5 mg/kg duas vezes ao dia, manutenção de 5 mg/kg duas vezes ao dia e máximo de 10 mg/kg duas vezes ao dia, ou seja 20 mg/kg/dia[fonte].

O que existe hoje em norma vigente não é teto, é critério

A RDC 1.015/2026 não diz quanto, mas diz para quem e sob qual responsabilidade. O Art. 35 restringe a prescrição a pacientes sem alternativa terapêutica satisfatória com medicamentos regularizados no país. E o Art. 36 acrescenta que o prescritor deve apoiar-se em dados técnico-científicos capazes de sugerir que o uso é opção segura e eficaz, e que a indicação e a forma de uso são de responsabilidade do prescritor[fonte].

Leia esses dois artigos como o que eles são: o teto deixou de ser um número na norma e passou a ser um dever de fundamentação no prontuário. É mais trabalhoso e é mais defensável.

E vale reproduzir ao paciente a ressalva que o informe do Sírio-Libanês faz por escrito: não há evidências de alto nível sobre dose e frequência dos produtos de cannabis, e portanto não existe recomendação validada sobre a dose ideal[fonte]. A ausência de dose padronizada não é lacuna do prescritor: é o estado da evidência.

A armadilha da conversão em gotas

Este é o ponto em que a prática brasileira falha com mais frequência. O fator de 20 gotas por mililitro, que a internet repete, não corresponde a nenhum produto brasileiro de canabidiol: os folhetos declaram de 27 a 50, e o informe do Sírio-Libanês de 2022 registrava de 25 a 50[fonte].

A consequência é direta. Três produtos com a mesma concentração de rótulo podem exigir 6, 9 ou 11 gotas para entregar a mesma dose, porque o conta-gotas do frasco é diferente entre fabricantes. Se o paciente troca de marca mantendo o número de gotas, a exposição muda sem que ninguém tenha alterado a receita.

A conduta que resolve: prescreva em miligramas, ancorado no volume em mililitros. Alguns produtos, incluindo o canabidiol da Prati-Donaduzzi em 30 mL, já vêm com seringa dosadora graduada justamente por isso. Gota é unidade do frasco, não do fármaco.

A tabela por produto, o conversor e as três contas estão em conversão de gotas para mg de canabidiol.

A via muda a titulação

Titular sem considerar a via é titular no escuro, porque a via define três coisas: quanto do fármaco chega, em quanto tempo, e por quanto tempo permanece.

Via oral. É a mais usada e a que mais perde, pelo metabolismo de primeira passagem descrito acima. O pico plasmático demora, tipicamente algumas horas[fonte]. Consequência prática: efeito que não apareceu em uma hora não é motivo para repetir a dose, e essa é uma das causas mais comuns de superdosagem acidental por iniciativa do paciente.

Um agravante que quase ninguém menciona: alimento altera a absorção, e muito. Em voluntários sadios, refeição rica em gordura elevou a concentração máxima em cerca de 4,85 vezes e a exposição total em cerca de 4,2 vezes[fonte]. Em adultos com epilepsia refratária usando cápsula, a concentração máxima chegou a subir cerca de 14 vezes[fonte].

Isso significa que o paciente que toma em jejum num dia e após o almoço no outro muda a dose efetiva sem mudar a receita. Padronizar o momento da tomada em relação à refeição não é detalhe: faz parte da prescrição.

Via sublingual. Parte da dose escapa da primeira passagem, o início costuma ser mais rápido e a exposição, mais previsível. Exige tempo de contato com a mucosa, o que precisa ser explicado, porque paciente que engole imediatamente está usando via oral achando que usa sublingual.

Via inalatória. Início em minutos e meia-vida curta. Serve a sintoma irruptivo, não a controle de base.

A meia-vida do canabidiol é longa e o estado de equilíbrio leva dias a se estabelecer. Isso reforça o intervalo entre incrementos: subir antes do equilíbrio é medir o que ainda não terminou de acontecer. Meia-vida não aparece em nenhum dos dez concorrentes analisados.

O espectro do produto muda a dose

Dois produtos com a mesma concentração de canabidiol não são equivalentes.

Isolado contém apenas canabidiol. A conta é direta, e é o cenário em que a conversão de miligramas se comporta melhor.

Amplo espectro traz outros canabinoides e terpenos, sem THC em quantidade relevante.

Espectro completo contém THC em baixa concentração. Aqui a titulação passa a ter duas variáveis, e o THC costuma ser o fator limitante muito antes do canabidiol: o efeito adverso que interrompe o escalonamento normalmente vem dele. Em produto de espectro completo, portanto, a dose de THC é que define o teto, mesmo quando o alvo terapêutico é o canabidiol.

Trocar de espectro no meio do tratamento reinicia parte da titulação. Não é troca de marca: é troca de fármaco.

Dose por alvo clínico: o que a literatura sustenta

Oito dos dez concorrentes trazem tabelas de dose por condição. É o subtópico mais coberto da SERP, e também o mais perigoso, porque tabela de dose por doença lida sem contexto vira receita de bolso.

O que se pode afirmar com honestidade:

Epilepsia refratária é o único cenário com dose bem estabelecida, oriunda de ensaios controlados. No ensaio de Dravet, 20 mg/kg/dia reduziu a mediana de crises convulsivas de 12,4 para 5,9 por mês, contra 14,9 para 14,1 no placebo[fonte]. É de lá que vem a faixa em mg/kg, e é de lá que vem também o alerta de transaminases com valproato.

Ansiedade é o cenário em que o comportamento bifásico está mais bem documentado, pelo estudo de dose única citado acima. É o alvo em que subir por falta de resposta tem mais chance de piorar o resultado.

Dor crônica raramente responde a canabidiol isolado em monoterapia. A literatura de dor trabalha predominantemente com produtos que contêm THC, o que traz de volta a titulação de duas variáveis.

Insônia exige separar conciliação de manutenção. São desfechos diferentes, e a via e o horário da tomada importam tanto quanto a dose.

O que não se pode afirmar: que exista dose validada por condição para a maior parte das indicações. A ressalva do informe do Sírio-Libanês vale como texto: não há evidência de alto nível sobre dose e frequência, e portanto não há recomendação validada de dose ideal.

Antes da primeira dose

Um único concorrente entre os dez trata da triagem que antecede a prescrição. Ela decide mais do que o ajuste fino depois.

Triagem antes de iniciar

  • Alvo clínico definido em uma frase, com desfecho observável
  • Expectativa do paciente alinhada ao que a evidência sustenta
  • História pessoal e familiar de psicose, se houver THC no produto
  • Lista completa de medicações em uso, incluindo as sem receita
  • Função hepática avaliada quando houver hepatopatia ou valproato
  • Combinação de como e quando o paciente vai registrar a resposta

Como saber se a titulação está funcionando

Titulação sem desfecho definido não termina, porque não existe critério de parada.

O alvo precisa ser dito em termos observáveis antes da primeira dose. Não “melhorar a ansiedade”, e sim o que muda no dia do paciente se der certo. Não “dormir melhor”, e sim se o problema é adormecer ou permanecer dormindo.

Três coisas ajudam o acompanhamento:

  • Um registro simples do paciente, com dose, horário e resposta. Ele transforma a consulta de retorno em leitura de dados em vez de memória.
  • Uma escala compatível com o alvo, quando existir. Escala repetida na mesma pergunta vale mais que impressão geral.
  • Um prazo declarado para decidir. Sem prazo, a titulação vira aumento contínuo, e o paciente atravessa a janela terapêutica sem que ninguém perceba.

Perda de efeito depois de meses estabilizados merece leitura própria: pode ser tolerância de receptor, e nesse caso a conduta é pausa e revisão da razão, não aumento reflexo.

Interações que precisam ser checadas antes de assinar

Aqui a literatura pede uma distinção que costuma ser atropelada, inclusive por mim antes de conferir.

O canabidiol é substrato de CYP3A4 e CYP2C19: essas enzimas metabolizam o canabidiol, e por isso inibidores delas elevam a concentração plasmática dele[fonte]. E o canabidiol é inibidor de CYP2C19, com potencial de inibir também CYP2C8, CYP2C9, UGT1A9 e UGT2B7[fonte]. A inibição de CYP3A por canabidiol está demonstrada in vitro[fonte], sem relevância clínica estabelecida em bula.

Escrever “o canabidiol inibe CYP3A4 e CYP2C19” no mesmo fôlego coloca no mesmo nível de evidência duas coisas diferentes. Isso deixa de ser tema acadêmico quando o paciente já usa outra medicação.

A interação com clobazam é a mais bem documentada. A bula do Epidiolex registra aumento de cerca de três vezes na concentração do N-desmetilclobazam, o metabólito ativo[fonte], e o estudo de Geffrey em crianças com epilepsia refratária mediu aumento médio de 500 por cento, com efeitos adversos em 10 de 13 pacientes, todos resolvidos ao reduzir a dose do clobazam[fonte]. Repare que a conduta ali foi mexer no clobazam, não no canabidiol.

Antes de escalonar, confirme

  • Clobazam em uso: o metabólito ativo N-desmetilclobazam sobe cerca de 3 vezes com canabidiol, e um estudo em crianças com epilepsia refratária mediu aumento médio de 500%
  • Valproato em uso: a elevação de transaminases foi observada em 21% dos pacientes com valproato sem clobazam, e em 30% com os dois
  • Anticoagulante oral em uso, com atenção ao INR
  • Imunossupressor de janela estreita, como tacrolimo
  • Função hepática conhecida, sobretudo se houver hepatopatia prévia
  • Polifarmácia no idoso, que soma risco de sedação

A lista não substitui a checagem individual de interações, e sim organiza o que a literatura de canabidiol sinaliza com mais frequência.

Populações especiais

Nenhum dos dez concorrentes trata populações especiais como seção nomeada. Vale, porque a titulação muda em cada uma.

Idoso. Massa corporal, função hepática e polifarmácia empurram na mesma direção: dose inicial menor e escalonamento mais lento. Some a densidade de receptores CB1 em cerebelo e gânglios da base, e o risco de queda entra na conta antes da primeira dose.

Pediatria. É o único cenário com dose bem estudada em mg/kg, porque vem dos ensaios em epilepsia refratária. A prescrição por peso aqui é regra, não estimativa.

Hepatopatia. O canabidiol é metabolizado no fígado. Comprometimento hepático altera a exposição, e a monitorização de transaminases deixa de ser opcional, especialmente com valproato associado.

O que você leva para a consulta

  • A curva do canabidiol é bifásica: mais dose nem sempre é mais efeito.
  • A biodisponibilidade oral é baixa e errática, o que torna a titulação obrigatória.
  • Suba em incremento pequeno, com intervalo que permita ler a resposta.
  • Pare no alvo clínico ou no efeito adverso limitante, o que vier primeiro.
  • Não existe teto fixado por norma vigente: o 25 mg/kg/dia vem de resolução do CFM revogada, e as doses de ensaio são do alvo em que foram testadas.
  • Prescreva em miligramas com o volume em mililitros. Gota é unidade do frasco.
  • O fator gotas por mL varia de 25 a 50 entre produtos brasileiros e precisa ser lido no folheto daquele produto.
  • Cheque CYP3A4 e CYP2C19 antes de escalonar, principalmente com clobazam e valproato.
  • Padronize a tomada em relação à refeição: gordura muda a exposição.
  • Em produto de espectro completo, quem define o teto costuma ser o THC.
  • Defina o desfecho observável e o prazo de decisão antes da primeira dose.

Perguntas frequentes

Qual é a dose inicial de canabidiol?

Não existe uma dose inicial única, porque ela depende do alvo clínico, do peso e do perfil do paciente. A bula brasileira parte de 2,5 mg/kg/dia com aumento gradual, e a prática em adulto costuma iniciar com doses baixas divididas em duas tomadas. A dose inicial funciona como sonda: ela existe para medir a resposta, não para tratar.

Existe dose máxima de canabidiol por dia?

Não existe, hoje, dose máxima de canabidiol fixada por norma em vigor no Brasil. O número de 25 mg/kg/dia que circula vem do Anexo IV da Resolução CFM 2.113/2014, expressamente revogada pelo Art. 5º da Resolução CFM 2.324/2022, que por sua vez teve os efeitos sustados pela 2.326/2022[fonte][fonte]. A bula brasileira não fixa teto: ela diz que a literatura cita doses entre 2,5 e 25 mg/kg/dia[fonte]. Na prática, o teto é definido pelo alvo clínico atingido ou pelo efeito adverso limitante.

Quantas gotas de canabidiol equivalem a um mililitro?

Depende do produto: nos folhetos brasileiros o valor declarado varia de 25 a 50 gotas por mililitro. O número de 20 não é padrão da Farmacopeia Brasileira. Ele deriva da especificação de conta-gotas da USP, medida com água, e a Farmacopeia Brasileira só o usa como quantidade de ensaio quando o fabricante não declarou nada[fonte]. O valor correto é o que consta no rótulo ou no folheto daquele produto específico.

Por que a mesma concentração rende quantidades diferentes de gotas?

Porque o conta-gotas do frasco é diferente entre fabricantes. Três produtos a 200 mg/mL podem exigir 6, 9 ou 11 gotas para entregar a mesma dose de 50 mg. É por isso que a prescrição deve ser em miligramas com o volume em mililitros.

De quanto em quanto tempo se aumenta a dose?

O intervalo precisa ser longo o suficiente para que o efeito da dose atual se manifeste e para que efeitos adversos transitórios se acomodem. Escalonar diariamente impede atribuir resposta ou evento adverso à dose correta.

O paciente pode ajustar a dose sozinho?

O ajuste é conduta médica. O que cabe ao paciente é registrar resposta e efeitos adversos entre as consultas, o que torna a próxima decisão de dose muito mais informada.

Em quanto tempo o canabidiol começa a fazer efeito?

Depende da via. Por via oral o pico demora horas, e o estado de equilíbrio leva dias, porque a meia-vida é longa. Efeito que não apareceu em uma hora não indica falha nem justifica repetir a dose. Por via inalatória o início é de minutos, mas a duração é curta.

Tomar em jejum ou com alimento muda alguma coisa?

Muda. Refeição rica em gordura aumenta a exposição ao canabidiol de forma relevante. Alternar entre jejum e pós-refeição faz a dose efetiva variar sem que a receita tenha mudado, e por isso o momento da tomada deve ser padronizado.

O canabidiol interage com outros medicamentos?

Sim. Ele inibe isoenzimas do citocromo P450, com destaque para CYP3A4 e CYP2C19. As interações mais citadas envolvem clobazam e valproato, e merecem atenção também anticoagulantes e imunossupressores de janela terapêutica estreita.


Saber a mecânica resolve a titulação de hoje. Conduzir o caso do começo ao fim é outra coisa. O Curso de prescrição de cannabis medicinal para médicos | PDC percorre esse caminho completo, do receptor ao acompanhamento. Este artigo se apoia na base descrita em farmacologia do sistema endocanabinoide aplicada à prescrição, e continua em o que a via CYP450 exige checar e no talão correto para cada tipo de produto.

Fontes e referências

  1. Protocolo de utilização do canabidiol, Anexo IV da Resolução CFM 2.113/2014, publicado no hotsite do CFMConselho Federal de Medicina · Consulta em 20/08/2026
  2. Resolução CFM nº 2.113/2014, uso compassivo do canabidiol, PDF oficial carimbado REVOGADAConselho Federal de Medicina · Consulta em 20/08/2026
  3. Resolução CFM nº 2.324/2022, que revoga a 2.113/2014 no Art. 5º, publicada no DOU de 14/10/2022Conselho Federal de Medicina · Consulta em 20/08/2026
  4. Resolução CFM nº 2.326/2022, que susta temporariamente os efeitos da 2.324, publicada no DOU de 25/10/2022Conselho Federal de Medicina · Consulta em 20/08/2026
  5. Cannabidiol in patients with seizures associated with Lennox-Gastaut syndrome (GWPCARE4): randomised, double-blind, placebo-controlled phase 3 trial (PMID 29395273)Thiele EA et al., Lancet, 2018 · Consulta em 20/08/2026
  6. Add-on cannabidiol treatment for drug-resistant seizures in tuberous sclerosis complex: a placebo-controlled randomized clinical trial (PMID 33346789)Thiele EA et al., JAMA Neurol, 2021 · Consulta em 20/08/2026
  7. Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, capítulo 5.1.8 Teste de gotejamento (MG5.1.8-00)Agência Nacional de Vigilância Sanitária · Consulta em 20/08/2026
  8. An objective assessment of the variability in number of drops per bottle of glaucoma medication (PMID 28532424)Moore DB et al., BMC Ophthalmol, 2017 · Consulta em 20/08/2026
  9. RDC nº 1.015, de 2 de fevereiro de 2026, produtos de Cannabis para fins medicinaisAgência Nacional de Vigilância Sanitária · Consulta em 19/08/2026
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  11. Bula do Canabidiol solução oral, posologia e modo de usarPrati-Donaduzzi, via Consulta Remédios · Consulta em 19/08/2026
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  20. A phase I, randomized, double-blind, placebo-controlled, single ascending dose, multiple dose, and food effect trial of cannabidiol (PMID 30374683)Taylor L et al., CNS Drugs, 2018 · Consulta em 19/08/2026
  21. Food effect on pharmacokinetics of cannabidiol oral capsules in adult patients with refractory epilepsy (PMID 31247132)Birnbaum AK et al., Epilepsia, 2019 · Consulta em 19/08/2026

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