Quimiotipos I, II e III: por que sativa vs indica não serve para prescrever
A taxonomia sativa e indica é herança do mercado recreativo e não prevê a química da planta. O que se prescreve é quimiotipo, e a Anvisa já escreve assim.

Quimiotipo é a classificação da planta pela química dela, e não pelo nome comercial. Ela olha uma coisa só: a proporção entre THC e canabidiol que aquela planta produz.
Existem três, e a lógica é simples. O tipo I tem THC dominante, o tipo III tem canabidiol dominante, e o tipo II fica no meio, com os dois em quantidades parecidas.
Isso importa porque sobre o mesmo frasco existem sempre duas informações, um número e um nome. O número vem do rótulo e do laudo, o nome vem do mercado, e só o primeiro entra na receita. Quando o paciente chega dizendo que quer indica porque leu que indica relaxa, ele está te oferecendo o nome.
O que vem a seguir troca o nome pelo número: por que a divisão entre sativa e indica não prevê nada, que conta você faz para reconhecer o quimiotipo no rótulo, e as cinco condutas que substituem a escolha por nome de variedade.
O que é Cannabis sativa, na definição que vale para a prescrição
Cannabis sativa L. é a espécie vegetal da família Cannabaceae de onde saem todos os produtos de cannabis medicinal. Na definição do regulador brasileiro, ela é “comumente considerada a única representante do gênero, podendo ser categorizada em subespécies, variedades, cultivares e quimiotipos, os quais diferem entre si quanto ao seu perfil de canabinoides majoritários, principalmente em relação às concentrações absolutas e relativas de CBD e de THC e suas formas carboxiladas”.
O trecho entre aspas é a redação do Art. 3º, parágrafo único, inciso III, da RDC 1.015/2026, norma que passou a reger os produtos de cannabis no Brasil em 4 de maio de 2026. Repare no que ela não tem: em nenhum momento o regulador usa sativa e indica como categorias opostas. Ele fala em quimiotipo[fonte].
O resto deste texto mostra por que a troca aconteceu e o que muda quando você deixa de escolher pelo nome e passa a escolher pela razão entre canabinoides.
De onde vem o par sativa e indica
Os dois nomes são antigos e legítimos. Lineu descreveu Cannabis sativa em 1753. Lamarck descreveu Cannabis indica em 1785, a partir de material trazido da Índia por Sonnerat, destacando propriedades inebriantes mais marcadas. Vale registrar um detalhe que costuma se perder: o caractere diagnóstico que Lamarck publicou era morfológico, a inserção das folhas, e hoje é reconhecido como incorreto. O problema, portanto, nunca esteve na origem dos nomes. Está no uso que se passou a fazer deles[fonte].
Em 1976, Small e Cronquist propuseram tratar Cannabis como espécie única com subespécies, numa taxonomia pensada para uso prático. McPartland revisou a história inteira e chegou a uma conclusão desconfortável: os botânicos de campo dos séculos 18 a 20 aplicaram esses nomes de forma caprichosa, e é dessa aplicação errática que nasceu a taxonomia vernacular de Sativa e Indica usada pelo mercado. Nas palavras dele, ela desalinha por completo com os táxons formais C. sativa e C. indica[fonte].
Quando um catálogo diz que uma variedade é sativa, portanto, ele quase nunca está falando de Cannabis sativa no sentido botânico. Está falando de uma expectativa de efeito.
O que aconteceu quando foram medir
Três estudos, com três métodos diferentes, chegaram ao mesmo lugar. Dois deles compartilham o autor sênior, o que vale declarar.
Sawler e colaboradores genotiparam 14.031 marcadores em 81 amostras de maconha e 43 de cânhamo. A correlação entre estrutura genética e ancestralidade sativa ou indica declarada foi apenas moderada, e os nomes comerciais frequentemente não refletem identidade genética significativa. O achado mais contraintuitivo: o cânhamo é geneticamente mais próximo da maconha do tipo indica do que das variedades do tipo sativa[fonte].
Schwabe e McGlaughlin analisaram 30 variedades compradas em dispensários de três estados americanos. As amostras se dividiram em dois grupos genéticos com forte suporte estatístico, mas os grupos não corresponderam à divisão Sativa, Híbrida e Indica. A ressalva é dos próprios autores: retirados os outliers óbvios, boa parte das variedades mostrou estabilidade genética considerável[fonte].
Watts e colaboradores fecharam a conta com mais de 100 amostras e mais de 100 mil marcadores: rotuladas como Sativa e como Indica, as amostras são geneticamente indistinguíveis em escala genômica, e o que o rótulo acompanha é a variação de poucos terpenos, controlada por arranjos de genes de terpeno sintase[fonte].
Traduzindo para a consulta: o rótulo tem alguma correspondência com o cheiro, e nenhuma com a farmacologia.
O que continua em aberto
A literatura não é unânime, e fingir consenso seria o mesmo erro do lado oposto.
Hillig e Mahlberg analisaram 157 acessos e defendem o conceito de duas espécies, com níveis médios de THC significativamente maiores em C. indica. Do outro lado está a leitura de espécie única com subespécies, a de Small e Cronquist, que McPartland sustenta com barcoding de DNA e que a Anvisa adota ao falar em espécie categorizável em subespécies. O mesmo Hillig publicou no ano seguinte uma terceira leitura, politípica, com três espécies, e ela é discutida adiante, na seção sobre a ruderalis[fonte].
A taxonomia segue em disputa. O que não está em disputa é a afirmação que interessa a quem prescreve: o rótulo comercial sativa ou indica não prevê a composição química do produto. Nisso os três estudos acima e o regulador brasileiro concordam.
Quimiotipo: a classificação que se mede
Quimiotipo, ou quimiovar, é a classificação da planta pelo que ela de fato contém, medido por cromatografia, e não pelo que o catálogo promete.
Small e Beckstead descreveram fenótipos canabinoides em Cannabis já em 1973. Quem consolidou o modelo foi de Meijer e colaboradores: cruzaram plantas puras em CBD com plantas puras em THC, toda a F1 saiu com quimiotipo misto e, nas F2, os três quimiotipos segregaram na proporção 1:2:1, padrão clássico de um único locus com dois alelos codominantes, batizados BD e BT[fonte][fonte].
É o ponto que muda a cabeça de quem prescreve: o quimiotipo é um traço mendeliano simples, não um continuum vago de “energizante” e “relaxante”. O que segrega em 1:2:1 é a classe, e não o número exato: dentro de cada classe a razão CBD/THC ainda varia de forma específica de progênie.
Os três quimiotipos principais e o que cada um significa no Brasil
| Tipo I | Tipo II | Tipo III | |
|---|---|---|---|
| Perfil de canabinoides | THC predominante | THC e CBD equilibrados | CBD predominante |
| Genótipo no locus B | BT/BT | BD/BT | BD/BD |
| Status na RDC 1.015 | Fora do escopo, Art. 4º | Fora do escopo, Art. 4º | Único autorizável |
| Faixa no rótulo | Sem produto autorizado | Sem produto autorizado | Vermelha ou preta, conforme THC |
Genótipos conforme de Meijer e colaboradores, Genetics, 2003. Status e faixa conforme os Art. 4º, 23 e 24 da RDC 1.015/2026: a faixa acompanha o teor de THC, e não o quimiotipo. Vermelha até 0,2 por cento de THC, preta acima disso.
A leitura da tabela que muda a rotina no Brasil
Repare na terceira linha, porque ela quase nunca é dita em voz alta. O Art. 4º da RDC 1.015/2026 determina que o produto de Cannabis contenha, como insumo ativo, exclusivamente o fitofármaco CBD ou o extrato obtido a partir de quimiotipo CBD-dominante. Ou seja: por essa via de autorização, só o quimiotipo III chega ao mercado brasileiro. Medicamento com registro segue outra via regulatória, assim como a importação individual pelo paciente[fonte].
Dentro dessa norma, portanto, a pergunta prática do consultório não é qual quimiotipo escolher. É quanto de THC existe dentro de um produto que já é CBD-dominante, com o corte em 0,2 por cento decidindo faixa de rótulo e restrição de uso.
Os tipos IV e V, que quase ninguém cita
A classificação não para no três. O quimiotipo IV acumula canabigerol, o CBG, porque a versão do gene que ele carrega quase não converte o precursor em nada, e o resultado é a planta ficar com a matéria-prima em vez do produto final. Ele já foi descrito e nomeado assim na literatura recente[fonte][fonte]. O quimiotipo V é praticamente isento de canabinoides e por isso serve como comparador cego em estudos controlados: imita as propriedades sensoriais do cânhamo sem entregar canabinoides. Isso não quer dizer que seja inerte, e a própria caracterização dele descreve compostos fenólicos com atividade anti-inflamatória in vitro[fonte].
Nenhum dos dois tem tradução no vocabulário sativa e indica. É mais uma evidência de que o par não tem resolução para descrever a planta.
O quimiotipo é estável, o nome não é
Jikomes e Zoorob analisaram a base pública de rastreabilidade do estado de Washington e confirmaram que as variedades comerciais se agrupam em três quimiotipos amplos definidos pela razão THC:CBD. Smith e colaboradores ampliaram para seis estados, medindo canabinoides e terpenos: os quimiotipos aparecem de forma confiável e repetida, enquanto os rótulos comerciais não se alinham de forma consistente com a diversidade química observada[fonte][fonte].
A química se repete. O nome, não.
E a ruderalis? O terceiro nome que o trio carrega
O par sativa e indica quase nunca aparece sozinho. Vem em trio, e o terceiro nome é o mais mal explicado dos três. Vale desmontar, porque o paciente chega com ele e porque a resposta reforça exatamente o argumento deste artigo.
O que Janischewsky descreveu em 1924
Cannabis ruderalis Janisch. foi publicada em 1924, nos anais da universidade de Saratov, a partir de plantas silvestres do sudeste da Rússia. O epíteto vem do latim rudus, entulho: planta ruderal é a que cresce em terreno revolvido, beira de estrada, terra remexida[fonte].
Dois detalhes que o folclore apagou. Primeiro, o próprio autor não defendia o status de espécie, e escreveu que se inclinava a considerar aquilo uma variedade bem marcada. Segundo, a planta dele não é a plantinha atarracada da imagem popular: eram exemplares de até 2,1 metros, ramificação frouxa, folíolos estreitos. A versão baixa e não ramificada da Ásia Central veio depois, quando Schultes aplicou o mesmo nome a outro material[fonte].
Há ainda um problema de precedência. Vavilov havia nomeado a mesma população silvestre de Saratov dois anos antes, em 1922, como C. sativa var. spontanea, e é esse nome que tem prioridade nomenclatural. Hoje o Kew lista Cannabis ruderalis simplesmente como sinônimo de Cannabis sativa[fonte][fonte].
O nome virou três coisas ao mesmo tempo
O que aconteceu com “ruderalis” no vocabulário de mercado é mais interessante do que a história botânica. Na descrição de McPartland, o termo passou a ser aplicado a plantas que exibem uma a três características: CBD parecido com THC, morfologia de tipo silvestre, ou floração precoce, a chamada floração automática[fonte].
Leia de novo: uma a três. Química, forma e fenologia, em qualquer combinação, sob um rótulo só. Uma planta pode receber o nome por qualquer um dos três motivos, e duas plantas chamadas de ruderalis podem não ter nenhum critério em comum. É a mesma falha do par sativa e indica, agravada.
Floração automática não é “genética ruderalis”
A atribuição mais repetida é que a ruderalis seria a fonte do autoflorescimento, a floração que dispensa mudança de fotoperíodo. Os grupos que mapearam o traço dizem outra coisa.
Toth e colaboradores caracterizaram um locus, o Autoflower1, no cromossomo 1, que segrega de forma mendeliana recessiva, na proporção de três para um, em cruzamentos específicos. E registraram, no mesmo trabalho, que os marcadores não previam a insensibilidade ao fotoperíodo em todo o germoplasma, e que o teste de complementação foi inconclusivo. Dowling e colaboradores mostraram que existem pelo menos dois loci independentes, e que o autoflorescimento tem origens múltiplas e independentes dentro da espécie. Um terceiro grupo chegou a um gene regulador do relógio circadiano em material do tipo droga, achado que ainda não dá para somar como locus adicional sem saber se ele cai dentro do primeiro intervalo[fonte][fonte].
Sobre a atribuição à ruderalis, o texto de Toth é literal: ela vem da literatura cinza, e os estudos genômicos mais recentes e mais profundos não sustentam a existência desse grupo. É difícil herdar um gene de um grupo que a genômica não recupera[fonte].
Auto e quimiotipo são eixos independentes
Este é o ponto que interessa a quem prescreve. Se o autoflorescimento viesse com um perfil químico embutido, o nome teria valor clínico.
O traço já foi observado em germoplasma do tipo droga, isto é, THC predominante, no parental de quimiotipo III usado como âncora do pangenoma da espécie, e numa população de quimiotipo IV, CBG-dominante, em que cerca de um quarto dos indivíduos era insensível ao fotoperíodo. O quimiotipo é decidido no locus B, por alelos codominantes; os loci de floração são outros. Aparecer nos três extremos do espectro químico já basta para mostrar que o nome não carrega perfil[fonte].
Duas ressalvas honestas. Nenhum desses trabalhos testou independência estatística entre os dois eixos: o que existe é co-ocorrência observada, não um estudo desenhado para a pergunta. E há um custo documentado: genótipos autoflorescentes são descritos com teor de canabinoides mais baixo e pior qualidade de flor, e mesmo a heterozigose no Autoflower1 antecipa a floração em cerca de duas semanas e produz plantas menores, com menos biomassa. Nada disso muda o quimiotipo de uma planta, mas quem afirmar que o traço é quimicamente neutro está indo além do que foi medido[fonte].
Ruderalis não quer dizer “rica em CBD”
A associação entre planta silvestre e predominância de CBD existe nos dados, e a explicação dela não é taxonômica.
O levantamento de maior amostra genotipou 760 plantas feralizadas de doze estados americanos e as distribuiu assim: 6 por cento de quimiotipo I, 15 por cento de tipo II e 78 por cento de tipo III, com canabinoide total variando de 0,21 a 4,73 por cento. Um levantamento anterior em Minnesota encontrou o mesmo predomínio de CBD, com fração THC-dominante ainda menor, de 1 por cento[fonte][fonte].
Repare no que esses números dizem de verdade. O predomínio de CBD aparece porque essas populações escaparam de cultivo industrial dos séculos anteriores, e não porque exista uma categoria química chamada ruderalis. A prova está na própria amostra: 6 por cento delas são THC-dominantes. E do outro lado do mundo o resultado se inverte, porque o resequenciamento em larga escala identifica um grupo inteiro de plantas ferais do tipo droga[fonte].
O mesmo trabalho traz o achado que desmonta a imagem romântica da ruderalis como ancestral selvagem preservado: as plantas ferais estudadas não são tipos silvestres, e sim escapes históricos de formas domesticadas, e a conclusão dos autores é que os progenitores selvagens puros da espécie provavelmente já se extinguiram. Vale registrar que o trabalho mais recente diverge: a partir de um genoma silvestre tibetano, sugere que parentes selvagens ainda existam em regiões remotas da Ásia[fonte].
Onde a palavra simplesmente não aparece
Para quem prescreve no Brasil, o desfecho é seco: a palavra ruderalis não aparece em norma nenhuma, nem na RDC 1.015/2026, nem na RDC 660/2022, nem na Portaria 344/98[fonte][fonte].
A RDC 1.015 até admite que a espécie seja dividida em subespécies, variedades e cultivares. Mas a categoria que ela de fato usa, com definição escrita e com número, é o quimiotipo[fonte].
A norma ainda separa onde cada informação vive. A nomenclatura botânica completa é exigida no dossiê que instrui a autorização, junto com o quimiotipo e a origem geográfica. No rótulo, o que aparece é a concentração. Você nunca vai ler “ruderalis” num frasco brasileiro, porque a norma não põe táxon infraespecífico ali.
Na literatura clínica o resultado é o mesmo. Nas duas bases em que a busca foi feita, PubMed e ClinicalTrials.gov, não há ensaio clínico que use Cannabis ruderalis como intervenção. Nada do que você prescreve depende dessa palavra.
O contraponto, que existe e merece ser dito
Seria desonesto encerrar sem registrar que a defesa do táxon tem literatura revisada por pares. Hillig propôs o conceito politípico, com três espécies, a partir de variação de alozimas em 157 acessos, e um estudo de DNA de cloroplasto em 645 indivíduos recomendou nomear três subespécies, incluindo subsp. ruderalis[fonte][fonte].
Três observações sobre esses trabalhos. Eles recuperam o agrupamento com marcadores de baixa resolução, alozimas e cloroplasto. Eles delimitam o táxon por haplótipo e geografia, não por química, ainda que em Zhang o comprimento do dia entre como explicação climática do padrão latitudinal. E os estudos de resequenciamento de genoma nuclear completo não descrevem um agrupamento correspondente, ponto que Toth registra de forma explícita. A revisão genômica mais recente vai na mesma direção e conclui que a evidência se afastou do modelo de múltiplas espécies, apontando para um gênero de uma única espécie altamente diversa, embora o consórcio do pangenoma ainda descreva a questão como em aberto[fonte].
Para a decisão do consultório, o debate é indiferente. Espécie, subespécie ou variedade, o nome não diz quanto tem no frasco.
O que muda na prescrição
A regra dos cinco para um
A RDC 1.015/2026 não só usa a palavra quimiotipo como cria uma definição operacional com número. O Art. 3, inciso VIII, define quimiotipo CBD-dominante como aquele em que o CBD está presente em concentração no mínimo cinco vezes maior que a de THC[fonte].
Isso é um critério prescritível. Você consegue conferir com uma divisão.
O rótulo brasileiro já é um laudo resumido
O Art. 22 determina que a embalagem secundária traga o teor de CBD em mg/mL ou mg/mg, o teor de THC na mesma unidade sempre que ele passar de 0,2 por cento, e a relação quantitativa dos demais canabinoides acima de 1,0 por cento. Note a ausência: não há campo para o nome da variedade. O nome comercial do produto existe, e o Art. 8º o remete a regulamentação futura, com finalidade sanitária e vedação expressa a qualquer forma de promoção[fonte].
Acima de 0,2 por cento de THC entram duas consequências de conduta: a faixa vermelha do Art. 24 vira a faixa preta do Art. 23, com as frases de venda sob prescrição e de risco de dependência, e o produto fica reservado a pacientes com doenças debilitantes graves ou que ameacem a vida, pelo Art. 5º, que ainda o contraindica para menores de 18 anos, gestantes e lactantes.
Terpenos: o que dá para sustentar e o que ainda não dá
Hazekamp e Fischedick propuseram trocar a identificação pelo nome da variedade por uma identificação química, chamada quimiovar, que descreve o perfil completo de compostos da planta em vez do apelido comercial dela[fonte][fonte].
Lewis, Russo e Smith defendem exatamente o mesmo, e o argumento é direto: quem escolhe produto com base farmacológica escolhe pelo perfil químico, e não pela variedade[fonte].
Até aqui é solo firme. O passo seguinte exige cautela. A ideia de que terpenos modulam o efeito dos canabinoides, popularizada como efeito entourage, foi formulada por Russo em 2011 como hipótese proposta para ser testada, com base majoritariamente pré-clínica. Continua plausível e sob investigação, mas não é base para você prometer efeito clínico específico a partir de um perfil de terpenos. O achado de Watts delimita bem o que o rótulo carrega: ele acompanha o terpeno, e terpeno não é desfecho[fonte].
O que você leva para o consultório
Cinco condutas que substituem a escolha por nome de variedade
- Peça e leia o laudo de análise ou, na falta dele, o rótulo: o teor de CBD em mg/mL, e o de THC sempre que ele passar de 0,2 por cento, é o dado prescritível. O nome da variedade não é.
- Calcule a razão. Acima de cinco vezes mais CBD que THC, o produto é quimiotipo CBD-dominante na definição da Anvisa.
- Trate faixa preta como sinalização clínica, não burocrática: ela indica teor de THC acima de 0,2 por cento e traz consigo a restrição do Art. 5.
- Ao trocar de marca mantendo o mesmo quimiotipo, confira a concentração antes da equivalência de volume: mesma razão não significa mesma dose por gota.
- Se o paciente chegar pedindo uma variedade pelo nome, converta a conversa para razão THC:CBD antes de qualquer decisão de produto.
Definição de quimiotipo CBD-dominante conforme Art. 3, VIII, da RDC 1.015/2026.
Definido o quimiotipo, o que decide o resultado é a mecânica de subir a dose sem perder o efeito. Se a dúvida estiver na etapa anterior, de receituário e via de acesso, o caminho é como prescrever canabidiol. E para entender por que a razão entre canabinoides importa tanto, vale revisar o que cada canabinoide faz nos receptores CB1 e CB2, onde a diferença entre tipo I, II e III deixa de ser tabela e vira mecanismo.
Perguntas frequentes
O que é Cannabis sativa e para que serve?
É a espécie vegetal da qual se extraem todos os canabinoides de uso medicinal, entre eles o CBD e o THC. No Brasil, os produtos derivados dela são autorizados pela Anvisa e prescritos por perfil de canabinoides, e não por variedade.
Qual a diferença entre a Cannabis sativa e a indica?
Do ponto de vista prescritivo, nenhuma que você possa usar. Amostras rotuladas como sativa e como indica são geneticamente indistinguíveis em escala genômica, e os nomes comerciais frequentemente não refletem identidade genética significativa. A diferença que se mede é a razão entre THC e CBD, ou seja, o quimiotipo.
Cannabis sativa e Cannabis indica são espécies diferentes?
A taxonomia formal segue em disputa entre duas espécies e uma espécie com duas subespécies, esta última a leitura da norma brasileira. A disputa é sobre botânica e não altera a conduta clínica, que se apoia no quimiotipo.
Quais são os três tipos de cannabis?
Depende de qual trio a pergunta quer. O trio popular, sativa, indica e ruderalis, é de nomes de morfologia e geografia, e o terceiro deles o Kew hoje lista como sinônimo de Cannabis sativa. Na classificação que interessa à prescrição são os quimiotipos I, II e III: THC predominante, THC e CBD equilibrados, e CBD predominante, agrupamento que também aparece nos dados comerciais em larga escala. Existem ainda o tipo IV, rico em CBG, e o tipo V, praticamente sem canabinoides[fonte].
Qual é o efeito da Cannabis ruderalis?
A pergunta não tem resposta pelo nome. Populações ruderais e feralizadas já foram medidas nos quimiotipos I, II e III, com canabinoide total de 0,21 a 4,73 por cento, então o rótulo não prevê o que a planta acumula. O que orienta a decisão é a razão entre THC e CBD do produto, que está no laudo e no rótulo, e não o nome da planta.
É a ruderalis que dá a floração automática?
A floração automática, ou insensibilidade ao fotoperíodo, não depende de um grupo ruderalis. Já foram identificados pelo menos dois loci independentes, com origens múltiplas dentro da espécie, e o trabalho que caracterizou o primeiro deles registra que a atribuição do traço à ruderalis vem da literatura cinza, sem sustentação nos estudos genômicos[fonte].
O CBD é indica ou sativa?
Nem um nem outro. O canabidiol é uma molécula, e a planta que o acumula em predominância é o quimiotipo III, resultado da homozigose BD/BD no locus B, o que ocorre em plantas de qualquer aparência.
Qual é a cannabis mais forte?
Sem definir forte em relação a quê, a pergunta não tem resposta útil. Se for potência psicoativa, o determinante é o teor de THC, que o rótulo é obrigado a informar em mg/mL sempre que ele passa de 0,2 por cento. Nome de variedade não responde a isso, porque a concentração varia entre lotes e entre laboratórios[fonte].
Se o paciente perguntar qual é melhor para ele, o que respondo?
É pergunta de tratamento, não de botânica, e pertence à consulta. Quando o leitor for o paciente, o material adequado é o da Clínica Renasce sobre sativa e indica, escrito na linguagem de quem vai receber o tratamento.
Onde isso é treinado na prática
Trocar o nome pelo número parece simples num texto e não é na consulta: o paciente chega com vocabulário de mercado. Ler laudo, calcular razão e sustentar a decisão em prontuário é treinamento, não leitura. É isso que o treinamento em quimiotipagem do Instituto Renasce cobre, do laudo até a escolha do produto. Antes de escolher qualquer curso, vale saber o que uma formação em medicina endocanabinoide pode e não pode conferir.
Fontes e referências
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