Quimiotipos I, II e III: por que sativa vs indica não serve para prescrever
A taxonomia sativa e indica é herança do mercado recreativo e não prevê a química da planta. O que se prescreve é quimiotipo, e a Anvisa já escreve assim.

Sobre o mesmo frasco existem duas informações: um número, que vem do rótulo, e um nome, que vem do mercado. Só a primeira entra na receita.
O que é Cannabis sativa, na definição que vale para a prescrição
Cannabis sativa L. é a espécie vegetal da família Cannabaceae de onde saem todos os produtos de cannabis medicinal. Na definição do regulador brasileiro, ela é “comumente considerada a única representante do gênero, podendo ser categorizada em subespécies, variedades, cultivares e quimiotipos, os quais diferem entre si quanto ao seu perfil de canabinoides majoritários, principalmente em relação às concentrações absolutas e relativas de CBD e de THC e suas formas carboxiladas”.
O trecho entre aspas é a redação do Art. 3º, parágrafo único, inciso III, da RDC 1.015/2026, norma que passou a reger os produtos de cannabis no Brasil em 4 de maio de 2026[fonte]. Repare no que ela não tem: em nenhum momento o regulador usa sativa e indica como categorias opostas. Ele fala em quimiotipo.
Este texto explica por que a troca aconteceu e o que muda na sua conduta quando você deixa de escolher pelo nome e passa a escolher pela razão entre canabinoides.
De onde vem o par sativa e indica
Os dois nomes são antigos e legítimos. Lineu descreveu Cannabis sativa em 1753. Lamarck descreveu Cannabis indica em 1785, a partir de material trazido da Índia por Sonnerat, destacando propriedades inebriantes mais marcadas. Vale registrar o detalhe que o mercado esqueceu: o caractere diagnóstico que Lamarck publicou era morfológico, a inserção das folhas, e hoje é reconhecido como incorreto[fonte]. O problema, portanto, nunca foi a origem dos nomes. Foi o que o mercado fez com eles.
Em 1976, Small e Cronquist propuseram tratar Cannabis como espécie única com subespécies, numa taxonomia pensada para uso prático[fonte]. McPartland revisou a história inteira e chegou a uma conclusão desconfortável: os botânicos de campo dos séculos 18 a 20 aplicaram esses nomes de forma caprichosa, e é dessa aplicação errática que nasceu a taxonomia vernacular de Sativa e Indica usada pelo mercado. Nas palavras dele, ela desalinha por completo com os táxons formais C. sativa e C. indica[fonte].
Quando um catálogo diz que uma variedade é sativa, portanto, ele quase nunca está falando de Cannabis sativa no sentido botânico. Está falando de uma expectativa de efeito.
O que aconteceu quando foram medir
Três estudos, com três métodos diferentes, chegaram ao mesmo lugar. Dois deles compartilham o autor sênior, o que vale declarar.
Sawler e colaboradores genotiparam 14.031 marcadores em 81 amostras de maconha e 43 de cânhamo. A correlação entre estrutura genética e ancestralidade sativa ou indica declarada foi apenas moderada, e os nomes comerciais frequentemente não refletem identidade genética significativa. O achado mais contraintuitivo: o cânhamo é geneticamente mais próximo da maconha do tipo indica do que das variedades do tipo sativa[fonte].
Schwabe e McGlaughlin analisaram 30 variedades compradas em dispensários de três estados americanos. As amostras se dividiram em dois grupos genéticos com forte suporte estatístico, mas os grupos não corresponderam à divisão Sativa, Híbrida e Indica. A ressalva é dos próprios autores: retirados os outliers óbvios, boa parte das variedades mostrou estabilidade genética considerável[fonte].
Watts e colaboradores fecharam a conta com mais de 100 amostras e mais de 100 mil marcadores: rotuladas como Sativa e como Indica, as amostras são geneticamente indistinguíveis em escala genômica, e o que o rótulo acompanha é a variação de poucos terpenos, controlada por arranjos de genes de terpeno sintase[fonte].
Traduzindo para a consulta: o rótulo tem alguma correspondência com o cheiro, e nenhuma com a farmacologia.
O que continua em aberto
A literatura não é unânime, e fingir consenso seria o mesmo erro do lado oposto.
E são duas posições, não três. Hillig e Mahlberg analisaram 157 acessos e defendem o conceito de duas espécies, com níveis médios de THC significativamente maiores em C. indica[fonte]. Do outro lado está a leitura de espécie única com subespécies, a de Small e Cronquist, que McPartland sustenta com barcoding de DNA[fonte] e que a Anvisa adota ao falar em espécie categorizável em subespécies[fonte].
A taxonomia segue em disputa. O que não está em disputa é a afirmação que interessa a quem prescreve: o rótulo comercial sativa ou indica não prevê a composição química do produto. Nisso os três estudos acima e o regulador brasileiro concordam.
Quimiotipo: a classificação que se mede
Quimiotipo, ou quimiovar, é a classificação da planta pelo que ela de fato contém, medido por cromatografia, e não pelo que o catálogo promete.
Small e Beckstead descreveram fenótipos canabinoides em Cannabis já em 1973[fonte]. Quem consolidou o modelo foi de Meijer e colaboradores: cruzaram plantas puras em CBD com plantas puras em THC, toda a F1 saiu com quimiotipo misto e, nas F2, os três quimiotipos segregaram na proporção 1:2:1, padrão clássico de um único locus com dois alelos codominantes, batizados BD e BT[fonte].
É o ponto que muda a cabeça de quem prescreve: o quimiotipo é um traço mendeliano simples, não um continuum vago de “energizante” e “relaxante”. O que segrega em 1:2:1 é a classe, e não o número exato: dentro de cada classe a razão CBD/THC ainda varia de forma específica de progênie[fonte].
Os três quimiotipos principais e o que cada um significa no Brasil
| Tipo I | Tipo II | Tipo III | |
|---|---|---|---|
| Perfil de canabinoides | THC predominante | THC e CBD equilibrados | CBD predominante |
| Genótipo no locus B | BT/BT | BD/BT | BD/BD |
| Status na RDC 1.015 | Fora do escopo, Art. 4º | Fora do escopo, Art. 4º | Único autorizável |
| Faixa no rótulo | Sem produto autorizado | Sem produto autorizado | Vermelha ou preta, conforme THC |
Genótipos conforme de Meijer e colaboradores, Genetics, 2003. Status e faixa conforme os Art. 4º, 23 e 24 da RDC 1.015/2026: a faixa acompanha o teor de THC, e não o quimiotipo. Vermelha até 0,2 por cento de THC, preta acima disso.
A leitura da tabela que muda a rotina no Brasil
Repare na terceira linha, porque ela quase nunca é dita em voz alta. O Art. 4º da RDC 1.015/2026 determina que o produto de Cannabis contenha, como insumo ativo, exclusivamente o fitofármaco CBD ou o extrato obtido a partir de quimiotipo CBD-dominante[fonte]. Ou seja: por essa via de autorização, só o quimiotipo III chega ao mercado brasileiro. Medicamento com registro segue outra via regulatória, assim como a importação individual pelo paciente.
Dentro dessa norma, portanto, a pergunta prática do consultório não é qual quimiotipo escolher. É quanto de THC existe dentro de um produto que já é CBD-dominante, com o corte em 0,2 por cento decidindo faixa de rótulo e restrição de uso.
Os tipos IV e V, que quase ninguém cita
A classificação não para no três. O quimiotipo IV acumula canabigerol, o CBG, porque um alelo de função mínima no mesmo locus B converte o precursor apenas de forma residual[fonte], e já foi caracterizado e nomeado assim na literatura recente[fonte]. O quimiotipo V é praticamente isento de canabinoides e por isso serve como comparador cego em estudos controlados: imita as propriedades sensoriais do cânhamo sem entregar canabinoides. Isso não quer dizer que seja inerte, e a própria caracterização dele descreve compostos fenólicos com atividade anti-inflamatória in vitro[fonte].
Nenhum dos dois tem tradução no vocabulário sativa e indica. É mais uma evidência de que o par não tem resolução para descrever a planta.
O quimiotipo é estável, o nome não é
Jikomes e Zoorob analisaram a base pública de rastreabilidade do estado de Washington e confirmaram que as variedades comerciais se agrupam em três quimiotipos amplos definidos pela razão THC:CBD[fonte]. Smith e colaboradores ampliaram para seis estados, medindo canabinoides e terpenos: os quimiotipos aparecem de forma confiável e repetida, enquanto os rótulos comerciais não se alinham de forma consistente com a diversidade química observada[fonte].
A química se repete. O nome, não.
O que muda na prescrição
A regra dos cinco para um
A RDC 1.015/2026 não só usa a palavra quimiotipo como cria uma definição operacional com número. O Art. 3, inciso VIII, define quimiotipo CBD-dominante como aquele em que o CBD está presente em concentração no mínimo cinco vezes maior que a de THC[fonte].
Isso é um critério prescritível. Você consegue conferir com uma divisão.
O rótulo brasileiro já é um laudo resumido
O Art. 22 determina que a embalagem secundária traga o teor de CBD em mg/mL ou mg/mg, o teor de THC na mesma unidade sempre que ele passar de 0,2 por cento, e a relação quantitativa dos demais canabinoides acima de 1,0 por cento. Note a ausência: não há campo para o nome da variedade. O nome comercial do produto existe, e o Art. 8º o remete a regulamentação futura, com finalidade sanitária e vedação expressa a qualquer forma de promoção[fonte].
Acima de 0,2 por cento de THC entram duas consequências de conduta: a faixa vermelha do Art. 24 vira a faixa preta do Art. 23, com as frases de venda sob prescrição e de risco de dependência, e o produto fica reservado a pacientes com doenças debilitantes graves ou que ameacem a vida, pelo Art. 5º, que ainda o contraindica para menores de 18 anos, gestantes e lactantes[fonte].
Terpenos: o que dá para sustentar e o que ainda não dá
Hazekamp e Fischedick propuseram trocar a identificação por cultivar pela identificação por quimiovar, usando o perfil químico completo[fonte], extensão do trabalho anterior de impressão digital metabólica com canabinoides e terpenoides[fonte]. Lewis, Russo e Smith defendem o mesmo: a base farmacológica da escolha é o quimiovar, não a variedade[fonte].
Até aqui é solo firme. O passo seguinte exige cautela. A ideia de que terpenos modulam o efeito dos canabinoides, popularizada como efeito entourage, foi formulada por Russo em 2011 como hipótese proposta para ser testada, com base majoritariamente pré-clínica[fonte]. Continua plausível e sob investigação, mas não é base para prometer efeito clínico específico a partir de um perfil de terpenos. O achado de Watts mostra onde o mercado se apoia nela sem direito: o rótulo acompanha o terpeno, e o terpeno é vendido como se fosse desfecho[fonte].
O que você leva para o consultório
Cinco condutas que substituem a escolha por nome de variedade
- Peça e leia o laudo de análise ou, na falta dele, o rótulo: o teor de CBD em mg/mL, e o de THC sempre que ele passar de 0,2 por cento, é o dado prescritível. O nome da variedade não é.
- Calcule a razão. Acima de cinco vezes mais CBD que THC, o produto é quimiotipo CBD-dominante na definição da Anvisa.
- Trate faixa preta como sinalização clínica, não burocrática: ela indica teor de THC acima de 0,2 por cento e traz consigo a restrição do Art. 5.
- Ao trocar de marca mantendo o mesmo quimiotipo, confira a concentração antes da equivalência de volume: mesma razão não significa mesma dose por gota.
- Se o paciente chegar pedindo uma variedade pelo nome, converta a conversa para razão THC:CBD antes de qualquer decisão de produto.
Definição de quimiotipo CBD-dominante conforme Art. 3, VIII, da RDC 1.015/2026.
Definido o quimiotipo, o que decide o resultado é a mecânica de subir a dose sem perder o efeito. Se a dúvida estiver na etapa anterior, de receituário e via de acesso, o caminho é como prescrever canabidiol. E para entender por que a razão entre canabinoides importa tanto, vale revisar o que cada canabinoide faz nos receptores CB1 e CB2, onde a diferença entre tipo I, II e III deixa de ser tabela e vira mecanismo.
Perguntas frequentes
O que é Cannabis sativa e para que serve?
É a espécie vegetal da qual se extraem todos os canabinoides de uso medicinal, entre eles o CBD e o THC. No Brasil, os produtos derivados dela são autorizados pela Anvisa e prescritos por perfil de canabinoides, não por variedade[fonte].
Qual a diferença entre a Cannabis sativa e a indica?
Do ponto de vista prescritivo, nenhuma que se possa usar. Amostras rotuladas como sativa e como indica são geneticamente indistinguíveis em escala genômica[fonte], e os nomes comerciais frequentemente não refletem identidade genética significativa[fonte]. A diferença que se mede é a razão entre THC e CBD, ou seja, o quimiotipo.
Cannabis sativa e Cannabis indica são espécies diferentes?
A taxonomia formal segue em disputa entre duas espécies[fonte] e uma espécie com duas subespécies[fonte], esta última a leitura da norma brasileira[fonte]. A disputa é sobre botânica e não altera a conduta clínica, que se apoia no quimiotipo.
Quais são os três tipos de cannabis?
Na classificação que interessa à prescrição são os quimiotipos I, II e III: THC predominante, THC e CBD equilibrados, e CBD predominante[fonte], agrupamento que também aparece nos dados comerciais em larga escala[fonte]. Existem ainda o tipo IV, rico em CBG[fonte], e o tipo V, praticamente sem canabinoides[fonte].
O CBD é indica ou sativa?
Nem um nem outro. O canabidiol é uma molécula, e a planta que o acumula em predominância é o quimiotipo III, resultado da homozigose BD/BD no locus B[fonte], o que ocorre em plantas de qualquer aparência.
Qual é a cannabis mais forte?
Sem definir forte em relação a quê, a pergunta não tem resposta útil. Se for potência psicoativa, o determinante é o teor de THC, que o rótulo é obrigado a informar em mg/mL sempre que ele passa de 0,2 por cento[fonte]. Nome de variedade não responde a isso, porque a concentração varia entre lotes e entre laboratórios[fonte].
Se o paciente perguntar qual é melhor para ele, o que respondo?
É pergunta de tratamento, não de botânica, e pertence à consulta. Quando o leitor for o paciente, o material adequado é o da Clínica Renasce sobre sativa e indica, escrito na linguagem de quem vai receber o tratamento.
Onde isso é treinado na prática
Trocar o nome pelo número parece simples num texto e não é na consulta: o paciente chega com vocabulário de mercado. Ler laudo, calcular razão e sustentar a decisão em prontuário é treinamento, não leitura. É isso que o treinamento em quimiotipagem do Instituto Renasce cobre, do laudo até a escolha do produto.
Fontes e referências
- RDC nº 1.015, de 2 de fevereiro de 2026, produtos de Cannabis para fins medicinaisAgência Nacional de Vigilância Sanitária · Consulta em 19/08/2026
- Cannabis systematics at the levels of family, genus, and species (PMID 30426073)McPartland JM, Cannabis Cannabinoid Res, 2018 · Consulta em 19/08/2026
- A practical and natural taxonomy for Cannabis (DOI 10.2307/1220524)Small E, Cronquist A, Taxon, 1976 · Consulta em 19/08/2026
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- Phytochemical characterization of the cannabigerol-rich Cannabis sativa L. chemotype IV (PMID 38408345)Gargiulo E et al., J Nat Prod, 2024 · Consulta em 19/08/2026
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- The genetic structure of marijuana and hemp (PMID 26308334)Sawler J et al., PLoS One, 2015 · Consulta em 19/08/2026
- Genetic tools weed out misconceptions of strain reliability in Cannabis sativa (PMID 33526091)Schwabe AL, McGlaughlin ME, J Cannabis Res, 2019 · Consulta em 19/08/2026
- Cannabis labelling is associated with genetic variation in terpene synthase genes (PMID 34650264)Watts S et al., Nat Plants, 2021 · Consulta em 19/08/2026
- The cannabinoid content of legal cannabis in Washington State varies systematically (PMID 29540728)Jikomes N, Zoorob M, Sci Rep, 2018 · Consulta em 19/08/2026
- The phytochemical diversity of commercial Cannabis in the United States (PMID 35588111)Smith CJ et al., PLoS One, 2022 · Consulta em 19/08/2026
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- Pharmacological foundations of cannabis chemovars (PMID 29161743)Lewis MA, Russo EB, Smith KM, Planta Med, 2018 · Consulta em 19/08/2026
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